
Em um editorial contundente, a Folha de S.Paulo escancarou um tema que por anos circulou nos bastidores, mas raramente ganhava luz direta: como prosperam parentes de ministros do Supremo Tribunal Federal. O texto sinaliza que o cerco institucional e público começa, enfim, a se fechar sobre a cúpula do Judiciário.
O ponto de partida do editorial é um levantamento do economista Bruno Carazza, publicado em coluna no Valor Econômico. Carazza analisou a atuação de nove advogados que são cônjuges ou filhos de ministros do Supremo Tribunal Federal, comparando o número de processos antes e depois das posses.
- Senador relembra que na sabatina fez alerta sobre “mentira” da ministra (veja o vídeo)
- URGENTE: Enquanto deixa Bolsonaro sob “tortura”, Moraes concede semi-aberto a algoz do ex-presidente
- Wagner Moura tenta “lacrar” em premiação internacional, mas é desmascarado por um verdadeiro ator (veja o vídeo)
- Nova ação acusando Moraes de tortura chega ao MPF
- Flávio recebe apoio de nome de peso no cenário internacional
Os números chamam atenção. No STF, as ações envolvendo esses parentes saltaram de 80 para 170. No Superior Tribunal de Justiça, o crescimento foi ainda mais expressivo: de 278 para 1.394 processos. E o próprio editorial ressalta que os dados são conservadores, já que não incluem sócios e estruturas indiretas dos escritórios ligados às famílias dos magistrados.
A Folha faz a ressalva formal de que o aumento da demanda, por si só, não configura ilegalidade. Em qualquer país, clientes são livres para escolher seus advogados. Ainda assim, o jornal reconhece o ponto central do problema: é difícil afastar a percepção de que a contratação mira não apenas a técnica jurídica, mas também a influência do ministro, algo que corrói diretamente a credibilidade do Judiciário.
O fenômeno, ironicamente apelidado de “filhotismo”, não é novo. O que mudou foi o contexto. Nos últimos anos, ele se somou a episódios cada vez mais difíceis de justificar, como eventos jurídicos luxuosos no exterior financiados por empresas com interesses no Supremo e relações entre magistrados e partes que extrapolam os limites mínimos de decoro.
O editorial cita casos concretos que ajudaram a elevar a temperatura do debate. Entre eles, a viagem do ministro Dias Toffoli em jato de empresário ligado ao Banco Master, e o contrato de R$ 129 milhões firmado entre essa mesma instituição, cercada de suspeitas, e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Diante desse conjunto de fatos, cresceu a pressão para que o STF adote um código de conduta, nos moldes das cortes constitucionais da Alemanha e dos Estados Unidos. A proposta, apresentada pelo próprio presidente do Supremo, Edson Fachin, conta com apoio de ministros mais discretos, mas enfrenta forte resistência interna, o que, segundo a Folha, agrava ainda mais o desgaste institucional.
O jornal é categórico ao concluir que essa postura é altamente danosa. A legitimidade das decisões do STF depende, no mínimo, da percepção pública de que elas não são enviesadas. E isso se torna impossível quando a imagem da Corte está associada a relações promíscuas, interesses cruzados e blindagem corporativa.
Sem um código de conduta e em um cenário de polarização crescente, a Folha alerta que projetos de lei para regular o comportamento dos ministros tendem a surgir. E, a cada novo episódio revelado, ficará mais difícil convencer a sociedade de que esse tipo de intervenção externa seria desnecessária.
