
No futebol brasileiro, o problema vai muito mais fundo. E está diretamente ligado ao maior desafio do país atualmente.
Gilmar Mendes não é apenas ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele é sócio-fundador do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), que desde agosto de 2023 administra a CBF Academy, o braço educacional da Confederação Brasileira de Futebol. O contrato assegura ao IDP 84% da receita dos cursos — cerca de R$ 9,2 milhões só em 2023. A CBF ficou com os 16% restantes. Observe a estrutura.
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Pelo menos seis nomes ligados ou indicados pelo IDP ocupam cargos na CBF, conforme reportagem da revista Piauí. Um vice-presidente, Gustavo Dias Henrique, também integra essa rede de influência. O filho de Gilmar, Francisco Schertel Mendes, comanda o IDP e ainda integra o Comitê de Disciplina da FIFA.
E quem decide as causas da CBF que chegam ao Supremo?
Gilmar.
Em ações decisivas sobre a presidência da CBF que foram parar no Supremo, Gilmar Mendes atuou como relator. Foi uma liminar dele que reconduziu Ednaldo Rodrigues à presidência da entidade — justamente durante a gestão em que o contrato com o IDP foi firmado e executado. O pedido partiu do PCdoB, partido do secretário-geral da CBF. Um pedido anterior, feito pelo PSD, havia sido negado por André Mendonça. Trocou-se o partido, trocou-se o relator e mudou o resultado. Ele nunca se declarou impedido.
Confrontado, negou qualquer conflito. E a justificativa que deu diz tudo. Segundo ele, o IDP “estava organizando e cedendo seu bom prestígio à CBF, e não o contrário”.
Releia a arquitetura por trás da frase. Um ministro que julga a entidade. Cujo instituto fatura com a entidade. Cujo filho comanda esse instituto. Cujos indicados ocupam cargos na diretoria da entidade. E que ainda vem a público dizer que o favor era dele.
Em agosto de 2025, uma representação pedindo a investigação de Gilmar Mendes por esse caso chegou à Procuradoria-Geral da República. Foi arquivada. O número dois da PGR entendeu que não havia indícios mínimos para sequer abrir apuração. Quem deveria fiscalizar olhou para toda a estrutura e decidiu não ver problema algum.
A CBF acaba se tornando um símbolo da mentalidade que destruiu não só o futebol brasileiro, mas o país em praticamente todas as suas dimensões.
