
Repare no calendário da semana. Terça-feira, os Estados Unidos cassaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Quinta-feira, Lula rebaixou as relações diplomáticas com a Argentina. Sexta-feira, a Colômbia empossou um presidente de direita com festa na rua. Em três dias, o governo brasileiro brigou com a maior potência do planeta, rompeu com o maior parceiro comercial da América do Sul e assistiu de fora à virada do vizinho. Existe método nessa sequência? Existe. E o método se chama campanha eleitoral.
A revogação do visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti, na terça-feira, 4 de agosto, não tem precedente na relação entre os dois países. O jornalista Paulo Figueiredo, que participou da ligação em que “um oficial sênior do Departamento de Estado” confirmou a decisão, deu o furo.
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O deputado Alexandre Ramagem detalhou o contexto que a propaganda oficial esconde: o governo Lula “segurou a concessão do agrément (aprovação official) ao embaixador americano, barrou diplomatas”. Marco Feliciano fechou a lógica em uma linha: “Quem planta, colhe: depois de Lula impedir 2 diplomatas americanos de entrarem no Brasil, EUA revogam visto da embaixadora brasileira em Washington.”
Flávio Bolsonaro chamou o episódio de “algo sem precedentes na História do Brasil” e apontou o dedo para “a incompetência e o rancor do atual governo brasileiro”. Eduardo Bolsonaro trouxe a discussão para a mesa da cozinha: “quem paga a conta é você”. Ele tem razão. O senador Jorge Seif Junior lembrou que o tarifaço americano de 25% “entrou em vigor e a conta sobrou para o Brasil”. Briga de ego se paga em dólar, e quem troca a moeda é o consumidor.
Na sequência, Flávio publicou nota dura contra o rompimento com Buenos Aires: “Repudio, com veemência, a decisão do governo Lula de rebaixar as relações diplomáticas com a Argentina, nação irmã, nosso maior parceiro comercial na América do Sul”. Javier Milei repostou a nota, num gesto que dispensa tradução. A senadora argentina Patricia Bullrich avisou: “A Argentina não é um país de segunda”. E o próprio Milei, questionado por um jornalista sobre ter chamado Lula de “ladrão, corrupto e condenado”, devolveu com uma pergunta só: “Eu menti?”
O deputado Marcel van Hattem fez o inventário da coleção: Lula “Já comprou briga com diversas nações governadas pela direita, como Israel, Estados Unidos e, agora, a Argentina”. Sergio Moro leu a jogada por dentro: “O Governo Lula quer transformar as divergências com Milei em crise diplomática. Vale tudo para ganhar as eleições.” Traduzindo: o Itamaraty virou comitê de campanha, e a política externa, panfleto de militância com timbre oficial.
Há um detalhe que mede o tamanho do blefe. Enquanto o Planalto posava de valente, o Senado americano aprovou Daniel Perez como novo embaixador no Brasil. Washington não recuou um milímetro: trocou o interlocutor e seguiu o jogo. Até o Paraguai entrou na lista dos vizinhos maltratados, como mostrou Eduardo Bolsonaro ao divulgar carta de protesto do presidente da Câmara de Deputados paraguaia. Quando até Assunção reclama, o problema não é o mundo.
E há o contraste que dói. Na madrugada de sexta, o jornalista Orlando Avendaño mostrou Medellín “à meia-noite, celebrando que terminou o governo nefasto de Gustavo Petro”. Horas depois, Abelardo de la Espriella tomava posse em Cali, e Milei já se encontrou com o novo presidente. Flávio mandou o recado: “A onda azul também vai chegar ao Brasil em breve!” A vizinhança virou a página. O Brasil ficou de fora da foto.
Diplomacia não é aplauso de militância, é preço na gôndola. Cada porta que Lula bate custa contrato de exportador, emprego no frigorífico, frete mais caro no fim da linha. O pecuarista que vende para fora e a dona de casa que faz feira pagam a fatura da valentia presidencial. O mundo segue girando com ou sem o Brasil na roda. E a valentia de palanque, até aqui, só produziu gol contra.
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