
O governo dos Estados Unidos anunciou neste domingo (27) que o pacote tarifário aprovado pelo presidente Donald Trump contra uma série de países, incluindo o Brasil, entrará em vigor na próxima sexta-feira, 1º de agosto, sem possibilidade de adiamento. A confirmação foi feita pelo secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, durante entrevista concedida à emissora americana Fox News e posteriormente divulgada nos canais oficiais da Casa Branca na plataforma X (antigo Twitter).
A notícia representa um revés importante para o governo brasileiro, que ainda mantinha expectativas de negociação com a administração norte-americana para suavizar ou postergar a aplicação das medidas. Com a tarifa estabelecida em 50% sobre todos os produtos exportados do Brasil para os Estados Unidos, setores-chave da economia brasileira, como o agronegócio, a indústria de transformação e o setor de minérios, devem sentir os efeitos quase que imediatamente.
Durante a entrevista, Lutnick foi enfático ao afirmar que “não haverá prorrogação, nem períodos de carência”. Segundo o secretário, o governo Trump está comprometido em implementar uma política comercial mais agressiva e nacionalista, voltada à proteção da indústria americana.
“Em 1º de agosto, as tarifas serão definidas e elas entrarão em vigor. A alfândega começará a arrecadar o dinheiro imediatamente. Isso não é simbólico — é real, é prático e é definitivo”, afirmou Lutnick.
A fala do secretário, além de ter sido repercutida na imprensa norte-americana, foi reforçada pelo perfil oficial da Casa Branca nas redes sociais, indicando que a decisão tem apoio irrestrito da alta cúpula do governo.
Embora diversos países tenham sido incluídos no pacote tarifário — como China, México, Índia e Vietnã —, o Brasil foi o que recebeu a maior alíquota: 50% sobre todas as categorias de produtos exportados. A medida surpreendeu parte dos analistas de mercado, que esperavam um percentual menor, ou ao menos exceções para produtos agrícolas e itens de tecnologia.
A decisão afeta diretamente setores estratégicos da economia brasileira. O agronegócio, por exemplo, tem nos Estados Unidos um dos seus principais destinos para produtos como carne bovina, café, frutas, celulose e soja processada. A nova tarifa tende a tornar esses produtos menos competitivos frente a outros fornecedores internacionais, como Argentina, Canadá e países do Sudeste Asiático.
Além disso, a indústria de transformação, já pressionada por fatores internos como carga tributária e custos logísticos, pode perder espaço no mercado norte-americano — justamente quando começava a apresentar sinais de recuperação.
Até o momento, o Palácio do Planalto não emitiu nota oficial sobre o anúncio. Nos bastidores, porém, fontes ligadas ao Itamaraty indicam que a notícia foi recebida com “preocupação e frustração”. Havia, até então, uma tentativa de interlocução com figuras próximas a Trump para mitigar os impactos da medida ou conseguir um prazo de transição.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que mantém posição crítica à política externa da atual administração republicana nos EUA, vinha buscando o apoio da União Europeia e de parceiros do BRICS para reequilibrar a balança comercial e reduzir a dependência dos Estados Unidos. No entanto, analistas apontam que tais medidas têm efeito de médio a longo prazo, e não serão suficientes para amortecer os impactos imediatos do pacote tarifário.
Impactos econômicos previstos
Especialistas do setor econômico preveem que a tarifa de 50% pode provocar retração nas exportações brasileiras para os EUA em até 30% no segundo semestre. O reflexo imediato seria a diminuição da entrada de divisas, o aumento do custo Brasil e a necessidade de realocar excedentes da produção para outros mercados menos lucrativos.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a medida também pode pressionar o câmbio e comprometer investimentos estrangeiros diretos, sobretudo aqueles ligados a cadeias de exportação. “É um impacto severo que exige resposta estratégica do governo federal, tanto em termos diplomáticos quanto de política industrial”, afirmou em nota o presidente da entidade, Ricardo Alban.
Perspectivas
A imposição tarifária ocorre em um momento político sensível para ambos os países. Nos Estados Unidos, Donald Trump se prepara para disputar a reeleição, e adota um discurso cada vez mais protecionista. Já no Brasil, Lula enfrenta dificuldades políticas internas e tenta manter uma agenda internacional ativa.
A decisão norte-americana pode ainda ter desdobramentos no plano diplomático. Setores do Congresso brasileiro já cogitam retaliações comerciais ou a abertura de queixas formais em organismos internacionais como a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Enquanto isso, empresários e representantes do setor produtivo brasileiro aguardam orientações do governo sobre como adaptar suas estratégias diante do novo cenário.