
O jornal norte-americano The New York Times publicou nesta sexta-feira (29) uma análise sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, marcado para 2 de setembro em Brasília. A reportagem questiona a forma como o Supremo Tribunal Federal (STF), sob comando do ministro Alexandre de Moraes, assumiu “poderes extraordinários” nos últimos anos, levantando sérias dúvidas sobre a solidez da democracia brasileira e sobre o equilíbrio institucional do país.
Segundo o periódico, para viabilizar os processos contra Bolsonaro e seus aliados, Moraes passou a liderar inquéritos de amplo alcance, autorizando buscas, bloqueios em redes sociais, censuras de contas e até prisões sem julgamento. Embora tais medidas tenham garantido, na visão do jornal, a transição de poder em 2023, o texto indaga se o Brasil não estaria diante de uma “guinada autoritária perigosa” disfarçada de proteção democrática.
O jurista Walter Maierovitch, ouvido pelo Times, avaliou que o STF cometeu “falhas e erros” graves na condução dos processos contra Bolsonaro e seus apoiadores. Para ele, esses equívocos não apagam a narrativa de “golpe”, mas tampouco podem justificar práticas arbitrárias. A reportagem também destaca que Moraes manteve poderes ampliados mesmo após Bolsonaro deixar o cargo, e hoje sua figura passou a ser tratada como símbolo da própria defesa da democracia, algo visto com preocupação por juristas e parlamentares.
O Times ainda lembrou a intervenção direta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que enviou carta ao governo brasileiro classificando o julgamento como uma “caça às bruxas”, além de impor tarifas contra o Brasil e sanções pessoais contra Moraes com base na Lei Magnitsky. No cenário interno, uma pesquisa Quaest citada pelo jornal mostrou que 46% dos brasileiros apoiam o impeachment de Moraes, enquanto 43% se posicionam contra. Apesar disso, o presidente do Senado já adiantou que não colocará o tema em votação.
A reportagem conclui apontando que movimentos de direita organizam protestos para o 7 de setembro, pedindo o impeachment de Moraes e denunciando o processo contra Bolsonaro. Nos bastidores de Brasília, porém, prevalece a percepção de que a condenação do ex-presidente é quase inevitável, já que para isso bastariam três votos de um colegiado composto por Moraes, um ex-ministro da Justiça de Lula e um ex-advogado do presidente petista.