
No Brasil da “justiça restaurativa”, um juiz militante decidiu soltar um traficante flagrado com 200 kg de pasta-base de cocaína, carga que poderia render até duas toneladas da droga pronta para circulação. A decisão se baseou na ideia de “diálogo e negociação”, como define o próprio Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que apresenta a modalidade como solução de conflitos com participação da vítima e do ofensor.
Enquanto isso, os réus do 8 de janeiro não tiveram a mesma sorte. Nas audiências de custódia, o que prevaleceu não foi diálogo, mas a análise das redes sociais de cada acusado, usada como justificativa para prisões preventivas em massa. O caso de Clezão, que morreu sem julgamento, se tornou símbolo da seletividade da Justiça, que aplica pesos e medidas diferentes a depender de quem está no banco dos réus.
A soltura da “mula” com a carga bilionária expõe a contradição de um sistema que se mostra leniente com o crime organizado, mas implacável contra manifestantes. Se o caminho fosse o da “restauração”, os acusados políticos também deveriam ter tido espaço para negociação e diálogo, e não perseguição e encarceramento prolongado. O contraste mostra que a justiça restaurativa, na prática, tem servido mais como instrumento ideológico do que como garantia de equilíbrio.
No Brasil de hoje, a mensagem é clara: traficar o equivalente a duas toneladas de cocaína pode ser perdoável, mas protestar no local errado pode custar a liberdade e até a vida. O resultado é um Judiciário que se apresenta como “humanizado” para criminosos comuns, mas se torna duro e implacável quando os alvos são cidadãos contrários ao projeto de poder vigente.