
O portal UOL revelou que o celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro registra 316 interações entre ele e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), nos dois meses que antecederam a prisão do dono do Banco Master.
Até então, só havia conhecimento de 52 mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes por meio de prints de textos escritos no bloco de notas. O material expõe, pela primeira vez, o teor de parte da conversa mantida pelos dois pelo WhatsApp e mostra a relação de intimidade cultivada pelo magistrado com o banqueiro.
“Obrigado amigo. Nem dá pra perceber que não sou eu rsrs”, escreveu Moraes em uma legenda de imagem enviada a Vorcaro em 24 de outubro de 2025. O conteúdo foi apagado por uma funcionalidade do WhatsApp que permite deletar mensagens 24 horas após seu envio. O UOL conseguiu recuperar o teor de interações a partir da análise de bancos de dados secundários mantidos pelo WhatsApp no celular de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal (PF) em 17 de novembro de 2025.
São classificadas como interações mensagens, fotos, chamadas, ligações perdidas e outros avisos do sistema. Além das 316 interações, o UOL identificou dois outros registros: um aviso de que a conversa é criptografada e outro indicando que foi acionado o mecanismo de mensagens temporárias de 24 horas. Um sistema do próprio iPhone registra o envio de cada mensagem para fazer uma seleção de contatos frequentes. Esse banco mostra que Vorcaro enviou 187 mensagens para o ministro do Supremo de 17 de setembro a 17 de novembro de 2025. Os outros 129 registros na conversa são relativos a mensagens de Alexandre de Moraes e avisos do sistema.
O ministro Alexandre de Moraes e a defesa de Vorcaro foram procurados, mas não se manifestaram. Os advogados do banqueiro tentam lançar dúvidas no Supremo sobre a integridade do celular de Vorcaro, com teses sobre a quebra da cadeia de custódia do aparelho. A cadeia de custódia também é questionada por Moraes. A defesa chama o relatório da PF sobre as conversas de mentiroso e diz que foi produzido como uma “vingança” pela sua atuação nos processos sobre a tentativa de golpe de Estado.
As mensagens recuperadas
Quando uma mensagem temporária expira, o WhatsApp apaga o registro dela no seu banco de dados principal. O aplicativo, porém, mantém diversos bancos secundários. O UOL recuperou mensagens por meio de análise desses dados. Vorcaro apagou toda a conversa com o ministro Alexandre de Moraes em setembro de 2025. Essa ação dificulta o rastreamento de mensagens anteriores. No dia 17 de setembro, a conversa foi retomada.
O UOL identificou 69 mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes nos dois meses que antecederam a prisão do banqueiro. A maioria (52) é de mensagens secretas enviadas por Vorcaro e já identificadas pela PF: ele escrevia o texto em um bloco de notas, fazia a captura da tela e enviava como imagem de visualização única para o ministro. Foram recuperadas outras 17 mensagens inéditas. Elas reforçam os sinais de proximidade entre Vorcaro e Moraes e mostram acertos para um encontro três dias antes da prisão do banqueiro.
Entre as mensagens recuperadas estão:
- 28/10/2025: Vorcaro escreveu “Opa tudo bem?” e “Boa, tinha esquecido disso. Sorte aí”. Moraes respondeu “Obrigado”.
- 12/11/2025: Moraes escreveu “Não basta ser pai, tem de participar rsrs”. Vorcaro respondeu “Você é paizão” e “Manda abraço pra todos”. Moraes respondeu “Pode deixar”.
- 14/11/2025: Moraes escreveu “Me avise quando pousar”. Vorcaro respondeu “Ok” e “Em voo”. Moraes perguntou “Chegou?”. Vorcaro respondeu “Agora pousei”. Moraes escreveu “A caminho então”.
Contexto
Informações adicionais do celular de Vorcaro e o relatório da PF ajudam a entender o contexto. No dia 12 de novembro de 2025, Alexandre de Moraes estava em Brasília e Vorcaro, em São Paulo. O banqueiro enviou mensagens secretas para o ministro na véspera sugerindo um encontro dos dois à noite. No dia seguinte, pela manhã, o banqueiro voltou a escrever: “Nao quero atrapalhar programa familia! Podemos falar outro dia!” Foi nesse contexto que as mensagens de texto foram enviadas à noite, com Vorcaro elogiando o papel paternal de Alexandre de Moraes.
O encontro ficou para 14 de novembro, três dias antes da prisão de Vorcaro. O banqueiro viajou de São Paulo a Brasília em seu jato particular. As novas mensagens reforçam a suspeita de que Alexandre de Moraes foi ao encontro do banqueiro naquele dia.
A PF enviou ao Supremo no fim de agosto um relatório contendo 52 mensagens secretas enviadas por Vorcaro a Moraes. Vorcaro usava um método para dificultar o rastreamento das comunicações: escrevia em um bloco de notas, fazia a captura da tela e enviava como imagem de visualização única pelo WhatsApp. As mensagens mostram Vorcaro aflito com a possibilidade de sofrer medidas da PF e do Banco Central. Ele pede ajuda de Moraes para “reverter isso com Paulo [Gonet] ou Andrei [Rodrigues]”, chefes da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da PF.
A relação entre os dois começou em dezembro de 2023. Vorcaro contratou o escritório de advocacia da esposa do ministro por quase R$ 130 milhões, mas o celular do banqueiro mostra uma relação de proximidade maior com Moraes do que com Viviane. Os diálogos são analisados pelo STF, que deve decidir ainda este ano se abre uma investigação contra Moraes pela relação suspeita que mantinha com Vorcaro.
Defesa
Em sua defesa no Supremo, Alexandre de Moraes chamou o relatório da PF de mentiroso, levantou dúvidas sobre a cadeia de custódia do celular de Vorcaro e disse que o relatório foi produzido como uma “vingança” pela sua atuação nos processos sobre a tentativa de golpe de Estado. “As ilações absurdas, que foram divulgadas como SUPOSTOS DIÁLOGOS entre Daniel Vorcaro e o Ministro Alexandre de Moraes, SIMPLESMENTE NÃO EXISTIRAM. NÃO EXISTE DIÁLOGO, que pressupõem a existência de dois interlocutores, pois não há UMA ÚNICA MENSAGEM OU BLOCO DE NOTAS COM O TEXTO DE MENSAGENS DO MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES”, escreveu o ministro.
Em notas anteriores à imprensa, o ministro negou que tenha trocado mensagens com Daniel Vorcaro e negou ser o destinatário das imagens do bloco de notas. “Apesar da farsa montada e divulgada, não existe absolutamente nada e todos sabem a motivação político-eleitoral desses criminosas mentiras. VINGANÇA”, afirmou.
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