Num artigo que, no começo, parecia voltado à ministra Cármen Lúcia, o jornalista da Rede Globo Merval Pereira enfim se portou como jornalista de fato e deu uma aula de decência, ética e compostura ao trio de ministros que, ao que tudo indica, opera em bloco no STF em torno de interesses comuns: Gilmar Mendes, Flávio Dino e Alexandre de Moraes. A cobrança aos três começa pelo título: Vergonha! Segue a transcrição reescrita:

Vergonha! Nélson Rodrigues costumava dizer que o jornalismo moderno era tão contido que, se o mundo acabasse, a manchete sairia sem ponto de exclamação. Hoje decidi usar o ponto de exclamação para registrar minha revolta. O sinal mais nítido da queda moral que atingiu o plenário do Supremo Tribunal Federal foi a irritação que a fala da ministra Cármen Lúcia provocou entre os colegas. A única integrante do colegiado que se alinhou ao sentimento coletivo de constrangimento da sociedade acabou tratada como quem traiu o corporativismo que domina a mais alta Corte do país.

A única magistrada a reconhecer que o Supremo gerou um “mal-estar cívico” na sociedade — pela exposição de brigas e confrontos nas sessões — tocou o que há de mais fundo no ânimo dos brasileiros, mas não comoveu os pares, absorvidos numa disputa vergonhosa pelo poder no STF, com o objetivo de impedir que um deles seja investigado. Buscam, assim, preservar a própria intocabilidade, talvez temendo a revelação de irregularidades que nem imaginamos, embora de algumas já saibamos o bastante para querer que também sejam apuradas.

Ao pedir desculpas ao presidente da Corte, aos colegas e ao povo brasileiro “por não ter conseguido ajudar a acalmar os ânimos de forma mais eficaz”, Cármen Lúcia criticou o impacto dos episódios às vésperas das eleições e disse que isso prejudica “não apenas o Poder Judiciário, mas o país inteiro”. Em nenhum momento acusou nominalmente os pares, nem o ministro Alexandre de Moraes — aquele a quem Flávio Dino e Gilmar Mendes não hesitaram em socorrer sob o pretexto de buscar a verdade, quando o caminho mais honesto para isso seria justamente a investigação.

Ela teve o cuidado de tratar os problemas como origem da decepção da sociedade com o STF, sem apontar o responsável, que arrastou consigo a credibilidade da instituição central da democracia brasileira. A mesma reserva teve o presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, que tentou conduzir a sessão para evitar o que todos temíamos: o adiamento em defesa do colega, ainda que isso significasse sacrificar a reputação do tribunal.

Não estavam ali para defender a instituição, como Dino alegou de forma falsa ao pedir vista — pedido que todos já sabiam de antemão que viria —, mas para proteger interesses próprios, tão entrelaçados aos de Moraes, revelados nas conversas que ele manteve com o banqueiro Daniel Vorcaro por um sistema de visualização única, feito para não deixar rastro de quem escreveu a mensagem.

O mesmo mecanismo que o próprio Moraes já criticou, por indicar que o recado poderia conter algum sinal de crime e por isso seria apagado de propósito. São esses os indícios que se procura na apuração bloqueada, com encenações de indignação de Gilmar — que, como se viu depois pela troca de mensagens com Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, queria na verdade tirá-los do julgamento para favorecer Moraes.

Nunes Marques sentiu o golpe, pediu para deixar o julgamento e também a sala, talvez para não ouvir o que diriam dele. Fux resistiu e rejeitou as acusações de Dino. Pelo uso das informações da última leva de transcrições do celular de Vorcaro, ele e Gilmar já tinham notícia de eventuais ligações dos ministros com o banqueiro, e era essa pescaria que pretendiam para atacar os colegas. Fizeram exatamente o que acusaram o ministro André Mendonça de ter feito.

Outro traço revelador da baixeza moral que predomina no plenário foi o modo como Gilmar, e sobretudo Dino, trataram Fachin com desrespeito. Este já deveria prever o que encontraria ao enfrentar Gilmar, pois o conhece bem, e também seus métodos. Confrontar um plenário em que atuam Moraes, Dino e Gilmar não é tarefa para temperamentos sensíveis, educados, sérios e equilibrados como o de Fachin.

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By Jornal da Direita Online

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